
Imagine esta cena fictícia: uma mãe está com seu filho de cinco anos na sala de espera de uma clínica pediátrica. O garoto parece entediado, começa a caminhar pela sala e observar os objetos com curiosidade.
Outra criança se junta a ele e então ambos começam a correr pela sala, ir para fora, entrar novamente, mexer nas revistas, conversar alto, enfim, incomodar as pessoas presentes. As mães destas crianças chamam a atenção e elas se contêm um pouco mais. Então, um deles começa a choramingar com sua mãe, querendo ir embora. A mãe, calmamente, explica que está esperando o médico chamá-los para a consulta e que ele deve esperar. Este não se conforma com a resposta e passa a choramingar ainda mais alto, parecendo contrariar a ordem que a autoridade materna lhe é investida. As pessoas, já cansadas com toda aquela espera, agora estão aturando uma criança que, quase aos berros, ordena que sua mãe a leve para casa. A esta mãe, não resta alternativa a não ser dar um discreto, mas doído, beliscão, dando uma ordem, em tom mais severo, para que ela se comporte. A criança ameaça chorar ainda mais alto, mas, ao ver a ameaça da mãe em dar-lhe umas boas palmadas, prefere conter o choro, soluçando baixinho em seu colo, para alívio de todos os presentes. Instantes depois, um policial e um conselheiro tutelar adentram a sala de espera e convidam esta mãe a acompanhá-los para prestar esclarecimentos, pois houve a denúncia de que ela havia agredido o filho momentos antes. A denúncia partira de uma funcionária da clínica, que presenciou o fato e não hesitou em comunicar à polícia do ocorrido.
Isso está parecendo absurdo pra você? Pois é uma situação como esta que estão querendo tornar real, com uma proposta de alteração no Estatuto da Criança e do Adolescente que começa a tramitar no Congresso esta semana. O próprio Estatuto, em seu conteúdo, já se refere a maus tratos, sem, no entanto, definir o que seria de fato, um mau trato. Essa brecha fez com que meia dúzia de imbecis (não encontrei outra palavra) propusesse que, nem os pais, nem os educadores devam sequer, “relar um dedo” em seus filhos ou alunos como uma punição mais firme, definindo assim, sua autoridade perante estes na sua formação. Mais uma vez, insistem que boa educação se faz apenas através de diálogo e mão na cabeça, chegando ao cúmulo de dizerem que esta proposta visa evitar que aconteçam atrocidades como no caso Isabella Nardoni. Isto é, buscam fatos isolados, provenientes de mentes doentias, para generalizar e justificar tamanha besteira.
Sinceramente, eu não sei o que se passa na cabeça desses magistrados, educadores, políticos, com toda essa formação acadêmica, para elaborar propostas como estas. O que eles entendem como violência contra a criança e adolescente? Como eles podem enxergar um tapinha ou beliscão como equivalentes a um espancamento? Confira o que estão dizendo por aí: estão se referindo a todo ato corretivo como espancamento! Estão dizendo que corrigir uma garota com uma palmadinha e atirá-la pela janela são a mesma coisa! IMBECIS! IMBECIS! Coloque um desses engomadinhos em uma casa humilde de periferia, com os pais semi-analfabetos e seus inúmeros filhos, desprovidos de espaço decente para as brincadeiras, vestuário, escola, áreas de lazer e tudo o mais, para verem a realidade.
Eles se esquecem que o termo “violência” é mais amplo, e que sujeitar alguém a uma situação que não a deixe ter outra escolha também é uma violência. Quer violência maior que esta? Um Estado que nega às suas crianças e a seus pais direitos fundamentais? Agora, este mesmo Estado, sem ao menos tentar corrigir sua forma inadequada de tratar suas crianças, quer se “enfiar” no meio familiar, dizendo como os pais devem ou não devem educar seus filhos! Este mesmo Estado, que disponibiliza escolas que, muitas vezes são formadoras de marginais, agora quer, sem qualquer critério, mudar a atitude dos adultos que estas mesmas escolas e normas de ensino produziram e continuam produzindo.
É muito fácil mudar uma lei e punir as pessoas. Difícil mesmo é mudar um sistema, para que possa dar tratamento preventivo a uma situação que pode sair do controle no futuro, obrigando mais uma vez a uma alteração de outra lei para corrigir as consequências que a falha da lei antiga produziu. Violência mesmo é criar um filho em uma redoma de vidro, livre de qualquer ameaça e contrariedade, não permitindo que ele sofra as decepções e contrariedades da vida e se torne uma pessoa inconsequente, que pode fazer de tudo, sem a certeza da punição, tampouco conhecimento de limites. Aí, quando ele for pego de arma em punho, assaltando um pai de família, podem chamar esses magistrados sabichões para tirarem a bunda da cadeira e dialogar, educar, alisar a cabeça desses meliantes, ao invés de levá-los à cadeia. Aliás: ao invés de punir, prender quem faz coisa errada, já que cárcere também é agressão, é violência, façam como fazem quando pegam os políticos corruptos: apenas conversem com os bandidos, pedófilos, traficantes, digam que é errado o que estão fazendo, alisem a cabecinha deles e façam eles prometerem que não vão fazer mais isso, tá bom!... Viu como isso funciona com os políticos?
Depois, dêem boa formação moral, melhorem as escolas, paguem bons salários aos professores, melhorem as condições de trabalho aos pais. Aí, com os pais tendo toda essa formação pedagógica que eles querem, nem as crianças vão precisar de palmadinhas, e nem os adultos vão precisar de punição.
ESTADO, FAÇA A SUA PARTE E DEIXE OS PAIS FAZEREM A PARTE DELES!
Ah, eu fui muito feliz quando criança e agradeço de coração aos meus pais, pelas palmadas e surras que eu levei naquela época. E não foram poucas. Ou seja, se o Estado aprovar essa alteração no ECA, vou ter que mover uma ação contra minha mãe, pelas agressões que sofri na infância. A gente vive cem anos e ainda não vê de tudo...
A PALMADINHA É MAIS EMBAIXO...
ResponderExcluirFim da palmadinha! Mais um projeto de lei genial para acabar com a violência e revolucionar o modo de educar as crianças! Pedagogos, psicólogos, educadores, promotores e boa parte da classe política brasileira comemoram esse “avanço” nas políticas de proteção à criança e ao adolescente contra os maus tratos e abusos, um mal que tanto assola a sociedade atual. Brindam esse absurdo como um feito histórico, com todos os argumentos na ponta da língua para rebater aos críticos quanto à viabilidade deste projeto.
Agora, qualquer vizinho enxerido vai ter o direito de ligar para a polícia se ouvir choro de criança na casa ao lado. O que querem fazer com as relações sociais? Seremos vigiados o tempo todo durante a criação de nossos próprios filhos? Então é isso, qualquer pessoa poderá interferir?
O que deve ser reprimido o tempo todo e por todos os lados é a VIOLÊNCIA FÍSICA, ABUSO, isto sim, é crime. Já a palmadinha tem uma função secular didática essencial. Se aliada ao diálogo e não tendo abuso em seu uso, qual é o problema? Ela ajuda a despertar a criança para seus limites, situa-a em suas obrigações e ainda prepara-a para o enfrentamento à vida no futuro, no mundo exterior - que por sinal, não é nenhum mar de rosas. Não causa traumas, não forma delinquentes e induz a criança a adquirir responsabilidades.
Se querem transformar o mundo em um reino encantado, em que todos resolvam seus problemas com sorriso no rosto, diálogos, acordos e todas as demais soluções pacíficas, tudo bem. É ótimo que isso ocorra. Vamos começar então. Transformemos os presídios em centros de reabilitação, abolindo toda a forma de violência física e psicológica e recuperando os detentos, ensinando-os a exercerem a cidadania, trabalhando, estudando, cooperando uns com os outros. Recuperemos o status das escolas como estabelecimentos de ensino, não depósito de alunos, como são hoje, onde aprende quem quer, pois se não quiser, passa de ano da mesma forma. Quantos trogloditas não temos por aí, ingressando em universidades, que mal aprenderam o significado da palavra cidadania? Reformemos o sistema trabalhista, as políticas de emprego e as relações comerciais, para que os pais de família dêem vida digna a seus filhos, passem mais tempo com suas famílias, divirtam-se, tenham moradia com o conforto necessário. Vamos resolver todos os conflitos internacionais com diplomacia, com os dois lados cedendo, encontrando uma saída para as vítimas e refugiados de guerra, fazendo acordo com os extremistas, respeitando seus princípios religiosos e locais sagrados, e que eles também aprendam a respeitar os seus limites. Vamos aprender a dividir as riquezas do mundo, diminuindo as desigualdades e a concentração desumana de renda. Formemos alianças entre os países ricos para socorrer os países vítimas da fome, grandes desastres, epidemias, para que se alivie todo aquele sofrimento e violência a que estão sujeitos.
Aí, sim, teremos o mundo perfeito para, no futuro, receber essas crianças que terão essa nova forma de educação dentro de casa, sem palmadinhas. Pois, se devemos criar cordeirinhos, de nada adiantará se, ao se tornarem adultos, forem soltos nesse mundo de chacais.